ivalentim:

Eu dizia que odiava sua risada alta e estridente. Sempre implicava com o seu cabelo grande e a barba por fazer que pinicava na minha pele.  Reclamava do jeito grosseiro que você mastigava e das piadas sem graça que você fazia. Falava mal da cor da sua blusa e do tênis estúpido que você não parava de usar. Acordava mal humorada de manhã e quase sempre descontava em você tudo de ruim que acontecia comigo. Desligava o telefone na sua cara quase todos os dias. Te fazia ciúmes o tempo todo. Falava mal das suas amigas. Ia embora sem olhar pra trás. E você era egoísta, infantil, orgulhoso, convencido. Usava uma camisa que soltava pelinhos e me fazia espirrar. Adorava fazer joguinhos. Preferia os amigos. Me levava em um restaurante japonês mesmo sabendo que eu odiava sushi. Me deixava sozinha na mesa pra atender o telefone. Não segurava minha mão na saída. Ria debochadamente quando algo que eu fazia não tinha dado certo. Sempre foi prepotente, arrogante, metido. Sempre fez tudo ao contrário do que eu pedia. Era mimado e egocêntrico. E eu, pra falar a verdade, era igual a você.

 A verdade é que a gente vivia em uma constante disputa de egos… E os dois perdiam no final. Toda vez que eu falava, você fazia questão de falar mais alto. Nossas brigas eram quase sempre sem motivo. Era tudo tão difícil, complicado, sufocante. Nossa relação parecia uma bomba prestes a explodir. Nós dois sempre estivemos em uma contagem regressiva. Até você se cansar de eu sempre te acusar de ser o culpado por qualquer coisa que desse errado a minha volta ou de eu me cansar do seu tom sarcástico respondendo minhas perguntas.
Nós fomos um erro. Eu, você, as pessoas, o planeta e o sistema solar inteiro sabem disso. Bastava estarmos na mesma sala pra começar a terceira guerra mundial. Eu e você sempre estávamos armados e prontos para começar mais um duelo. Eu e você sempre estávamos prontos para machucar um ao outro. E o pior, o pior mesmo, é que a gente nunca quis isso. Te machucar era a última coisa que eu queria na minha vida e era a única coisa que eu conseguia fazer. Acho que nós nem percebemos o tamanho estrago que causamos nesse negócio de gostarmos um do outro. E o pior de tudo é que não foi nossa culpa. Não, não foi. Você nunca foi o culpado por eu não gostar dos Beatles, e não era minha culpa sua alergia aos meus animais de estimação.  É só… É só o destino que apronta às vezes. Tinha amor. Tinha paixão. Tinha vontade dos dois lados. Mas tudo virou de cabeça pra baixo e nós dois caminhamos para um completo abismo.

E só sobrou um buraco aqui. Me dói notar que por trás de toda essa confusão eu ainda sinto um tanto de tristeza em não te ter mais. É insanidade, masoquismo, idiotice, eu sei. Mas eu ainda lembro de quando você me pediu em namoro na barraquinha de cachorro quente, todo sujo de molho de tomate. Eu limpei o cantinho da sua boca com um pano que eu encontrei dentro da bolsa e o guardei secretamente na caixinha que eu tinha debaixo da cama. Ele ainda deve estar lá, sujo, empoeirado… Mas esta lá. Intacto. Como o amor secreto, errado e doentio que eu ainda teimo em sentir por você. E eu tenho até medo em pensar na hipótese de querer ficar com você novamente. Pular da cobertura de um prédio e voltar com você são quase a mesma coisa.

É só que… Você fica bem naquela camisa branca que eu te dei no dia dos namorados. Você fica lindo quando se lambuza todo não sabendo tomar um sorvete direito. Você me fez viciar nas tuas músicas irritantes e eu já ouvi elas caladinha no canto do meu quarto enquanto te amaldiçoava por me fazer te amar tanto. Você me fazia rir, quando não estava me fazendo chorar. Você me fazia dormir cantando baixinho no meu ouvindo e espantava toda a raiva e a vontade de te enfocar que eu sentia. Você aparecia na minha casa com uma flor arrancada do jardim do vizinho e meu coração explodia de emoção quando te via, tão largado, tão nem-aí-pra-nada, tão eu-não-presto, tão meu.

Você conheceu o pior dos meus lados e foi o grande causador dos meus piores medos. Mas eu te amei… e te amo. Mesmo que seja contra a natureza amar você. Mesmo que seja estupidez da minha parte. Eu só queria que você soubesse que o que eu levo de você comigo não é a sua habilidade de fazer eu me sentir insegura e incapaz. Levo de você a lembrança do garoto que me ligava de madrugada porque tinha medo do futuro e precisava ouvir minha voz pra se acalmar.

O problema é que no fim a gente sempre acaba pensando demais no início. E se eu tivesse agido diferente? E se nós tivéssemos abaixássemos nossas guardas por apenas um minuto? Se eu tivesse te dito tudo o que eu sinto em vez de colocar meu orgulho em primeiro lugar? Sei lá… talvez se eu fosse loira, paciente e soubesse tocar violão a gente pudesse ter dado certo. Talvez se você cortasse o cabelo de três em três meses e contasse piadas mais engraçadas a gente pudesse ter dado certo. Sei lá.

O triste é que nós nunca poderemos descobrir isso. — (ivalentim)

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Eu dizia que odiava sua risada alta e estridente. Sempre implicava com o seu cabelo grande e a barba por fazer que pinicava na minha pele.  Reclamava do jeito grosseiro que você mastigava e das piadas sem graça que você fazia. Falava mal da cor da sua blusa e do tênis estúpido que você não parava de usar. Acordava mal humorada de manhã e quase sempre descontava em você tudo de ruim que acontecia comigo. Desligava o telefone na sua cara quase todos os dias. Te fazia ciúmes o tempo todo. Falava mal das suas amigas. Ia embora sem olhar pra trás. E você era egoísta, infantil, orgulhoso, convencido. Usava uma camisa que soltava pelinhos e me fazia espirrar. Adorava fazer joguinhos. Preferia os amigos. Me levava em um restaurante japonês mesmo sabendo que eu odiava sushi. Me deixava sozinha na mesa pra atender o telefone. Não segurava minha mão na saída. Ria debochadamente quando algo que eu fazia não tinha dado certo. Sempre foi prepotente, arrogante, metido. Sempre fez tudo ao contrário do que eu pedia. Era mimado e egocêntrico. E eu, pra falar a verdade, era igual a você.

 A verdade é que a gente vivia em uma constante disputa de egos… E os dois perdiam no final. Toda vez que eu falava, você fazia questão de falar mais alto. Nossas brigas eram quase sempre sem motivo. Era tudo tão difícil, complicado, sufocante. Nossa relação parecia uma bomba prestes a explodir. Nós dois sempre estivemos em uma contagem regressiva. Até você se cansar de eu sempre te acusar de ser o culpado por qualquer coisa que desse errado a minha volta ou de eu me cansar do seu tom sarcástico respondendo minhas perguntas.

Nós fomos um erro. Eu, você, as pessoas, o planeta e o sistema solar inteiro sabem disso. Bastava estarmos na mesma sala pra começar a terceira guerra mundial. Eu e você sempre estávamos armados e prontos para começar mais um duelo. Eu e você sempre estávamos prontos para machucar um ao outro. E o pior, o pior mesmo, é que a gente nunca quis isso. Te machucar era a última coisa que eu queria na minha vida e era a única coisa que eu conseguia fazer. Acho que nós nem percebemos o tamanho estrago que causamos nesse negócio de gostarmos um do outro. E o pior de tudo é que não foi nossa culpa. Não, não foi. Você nunca foi o culpado por eu não gostar dos Beatles, e não era minha culpa sua alergia aos meus animais de estimação.  É só… É só o destino que apronta às vezes. Tinha amor. Tinha paixão. Tinha vontade dos dois lados. Mas tudo virou de cabeça pra baixo e nós dois caminhamos para um completo abismo.

E só sobrou um buraco aqui. Me dói notar que por trás de toda essa confusão eu ainda sinto um tanto de tristeza em não te ter mais. É insanidade, masoquismo, idiotice, eu sei. Mas eu ainda lembro de quando você me pediu em namoro na barraquinha de cachorro quente, todo sujo de molho de tomate. Eu limpei o cantinho da sua boca com um pano que eu encontrei dentro da bolsa e o guardei secretamente na caixinha que eu tinha debaixo da cama. Ele ainda deve estar lá, sujo, empoeirado… Mas esta lá. Intacto. Como o amor secreto, errado e doentio que eu ainda teimo em sentir por você. E eu tenho até medo em pensar na hipótese de querer ficar com você novamente. Pular da cobertura de um prédio e voltar com você são quase a mesma coisa.

É só que… Você fica bem naquela camisa branca que eu te dei no dia dos namorados. Você fica lindo quando se lambuza todo não sabendo tomar um sorvete direito. Você me fez viciar nas tuas músicas irritantes e eu já ouvi elas caladinha no canto do meu quarto enquanto te amaldiçoava por me fazer te amar tanto. Você me fazia rir, quando não estava me fazendo chorar. Você me fazia dormir cantando baixinho no meu ouvindo e espantava toda a raiva e a vontade de te enfocar que eu sentia. Você aparecia na minha casa com uma flor arrancada do jardim do vizinho e meu coração explodia de emoção quando te via, tão largado, tão nem-aí-pra-nada, tão eu-não-presto, tão meu.

Você conheceu o pior dos meus lados e foi o grande causador dos meus piores medos. Mas eu te amei… e te amo. Mesmo que seja contra a natureza amar você. Mesmo que seja estupidez da minha parte. Eu só queria que você soubesse que o que eu levo de você comigo não é a sua habilidade de fazer eu me sentir insegura e incapaz. Levo de você a lembrança do garoto que me ligava de madrugada porque tinha medo do futuro e precisava ouvir minha voz pra se acalmar.

O problema é que no fim a gente sempre acaba pensando demais no início. E se eu tivesse agido diferente? E se nós tivéssemos abaixássemos nossas guardas por apenas um minuto? Se eu tivesse te dito tudo o que eu sinto em vez de colocar meu orgulho em primeiro lugar? Sei lá… talvez se eu fosse loira, paciente e soubesse tocar violão a gente pudesse ter dado certo. Talvez se você cortasse o cabelo de três em três meses e contasse piadas mais engraçadas a gente pudesse ter dado certo. Sei lá.

O triste é que nós nunca poderemos descobrir isso. (ivalentim)


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